As ruas eram tão longas,
As minhas pernas tão pequenas..
Revivo saudoso os muros gigantescos ao fundo da rua,
escorregadios e inultrapassáveis,
que aprendi, à custa dos meus minúsculos joelhos,
a conquistar.
E o cheiro a ar húmido-quente
nas noites frias de Inverno,
cachecóis compridos e bóinas submundistas,
paisagens de gabardines compridas flutuavam rente ao chão;
e os edifícios lúgubres e rendilhados afagados por ruas de luz ténue,
de roupagens côr de pedra escura, confortável ao toque,
companheiros gigantes e silenciosos da melancolia mal-interpretada.
Às vezes lembro-me da Avenida,
arena de correrias e habilidades,
conversas do mundo e encontros suspeitos sem veleidades,
com as suas faces e figuras alegóricas esculpidas ao alto
guardas mudos do que se passava todos os dias lá em baixo,
espreitando sorrateiramente os transeuntes
da beirada dos seus postos de cinco e seis andares.
E os candeeiros solitários que davam a sensação de falarem,
penteados de amarelo-torrado, que me sossegavam,
quando por ali passava sozinho.
E recordo, ainda hoje,
a chuva, que não me cansa,
que me sussurrava, indiferente ao burburinho,
-Vem, corre através dos meus braços e dança!
21/07/08
Certo de que um dia...
Se um dia eu morresse
Queria ver pratos com salgadinhos em cima do caixão
E serpentinas verdes e amarelas penduradas no portão.
Cadeiras de plástico azuis, mesas de desmontar
E copos descartáveis de festa que não se pudessem voltar a usar.
Garrafas, garrafões, minis e canções,
Sorrisos em coro e, por vezes, grandes gargalhadas sem decoro.
Música folclórica e bailes de cem pessoas,
E rapazes e raparigas sem medo de se convidarem para conversas e noites boas.
Um padre de saias compridas e óculos no fundo do nariz
Bêbado mas sorridente, e um coveiro com uma tenda de bebidas à base de aniz.
Os putos descalços, de bola no pé, aproveitando o que restar da relva
E sevilhanas de matracas na mão e dançarinos exóticos de Huelva.
Ciganos em correria, calças e camisas de desconto na mão,
Churrascos e assados de feira e uma banda filarmónica de coreto... porque não?!
Queria ver pratos com salgadinhos em cima do caixão
E serpentinas verdes e amarelas penduradas no portão.
Cadeiras de plástico azuis, mesas de desmontar
E copos descartáveis de festa que não se pudessem voltar a usar.
Garrafas, garrafões, minis e canções,
Sorrisos em coro e, por vezes, grandes gargalhadas sem decoro.
Música folclórica e bailes de cem pessoas,
E rapazes e raparigas sem medo de se convidarem para conversas e noites boas.
Um padre de saias compridas e óculos no fundo do nariz
Bêbado mas sorridente, e um coveiro com uma tenda de bebidas à base de aniz.
Os putos descalços, de bola no pé, aproveitando o que restar da relva
E sevilhanas de matracas na mão e dançarinos exóticos de Huelva.
Ciganos em correria, calças e camisas de desconto na mão,
Churrascos e assados de feira e uma banda filarmónica de coreto... porque não?!
Não se chama loucura...
Lunático, eu?!
Lunáticos os que não acreditam
Nas façanhas e promessas
Dos seus super-heróis privados com capa,
Sinais inequívocos da sua loucura deserdada,
Sem sentir a imensidão bruta de olhar nos espelhos dos corredores
E ver, ainda, no centro das suas vontades
O miúdo de boné que assalta as dúvidas
Dos momentos mais sensatos...
Provavelmente, por falta de Invernos seguidos de grandes Primaveras
Vividas, com receio, é certo,
Na companhia do boné...
Pra lá das portas do hospício,
A loucura prolifera escondida nas gavetas de cada um.
Talvez, na loucura dessa transparência,
Quando a água se agita,
Se construam castelos, pé ante pé...
Lunáticos os que não acreditam
Nas façanhas e promessas
Dos seus super-heróis privados com capa,
Sinais inequívocos da sua loucura deserdada,
Sem sentir a imensidão bruta de olhar nos espelhos dos corredores
E ver, ainda, no centro das suas vontades
O miúdo de boné que assalta as dúvidas
Dos momentos mais sensatos...
Provavelmente, por falta de Invernos seguidos de grandes Primaveras
Vividas, com receio, é certo,
Na companhia do boné...
Pra lá das portas do hospício,
A loucura prolifera escondida nas gavetas de cada um.
Talvez, na loucura dessa transparência,
Quando a água se agita,
Se construam castelos, pé ante pé...
Por vezes... Imagino um desenho
Por vezes... Imagino um desenho.
É grande e colorido
Como um jardim habitado aos domingos.
Um jardim relvado com lagos e cascatas,
Flores de alegria insuspeita,
Sombras ali poisadas com carinho
E moinhos... sim, grandes moinhos!
Imagino-o fluído, encosta a descer,
Suspiro e mergulho,
Rebolo, vida e amor a nascer,
Viro-me e sorrio
Com as maçãs do rosto encarnadas e os olhos muito abertos
E a surpresa própria de um garoto
Com o desejo de ficar mais um pouco,
Antes que o Sol se vá embora...
É grande e colorido
Como um jardim habitado aos domingos.
Um jardim relvado com lagos e cascatas,
Flores de alegria insuspeita,
Sombras ali poisadas com carinho
E moinhos... sim, grandes moinhos!
Imagino-o fluído, encosta a descer,
Suspiro e mergulho,
Rebolo, vida e amor a nascer,
Viro-me e sorrio
Com as maçãs do rosto encarnadas e os olhos muito abertos
E a surpresa própria de um garoto
Com o desejo de ficar mais um pouco,
Antes que o Sol se vá embora...
Lume
Corro perplexo, prometido das lendas
E dos tabus,
Das histórias da montanha desenhadas nas fendas
E dos preconceitos e certezas
De quem corre com os cotovelos nus.
Corro disperso,
Cortês para com a mente que trabalha,
Sozinha à luz da vela e ao som da navalha.
Não há voz nem melodia, apenas...
Um vociferar confortável que me chega da esquerda,
Junto à janela.
Cerveja e mortalhas...
E o fumo diletante que foge para aquela esquerda.
Enquanto Waits berra baixinho,
O piano sossegado pela cortesia
E o branco desmaiado do cubículo
Sussurram... para não afectarem a cegueira
E o sorriso mudo de quem bate no teclado.
A cabeça tomba para trás
E para a frente
Ao ritmo infernal, quase abdominal,
Rasgando as entranhas do homem
Oferecendo o poeta que, agora,
Nada mais exige.
O formigueiro das aventuras de papel
Espreita, curioso, as escalas intermináveis
Dos dedos que não se cansam,
Das ideias que não amansam.. e fogem,
Debaixo dos olhares turvos,
Pelo buraco da fechadura da porta da rua.
Corro imerso, disperso, perplexo,
Afogado no caudal da minha droga perfeita:
O bater de mim próprio
Que enche e quase rebenta..
Força Tom, dá-me lume!!
E dos tabus,
Das histórias da montanha desenhadas nas fendas
E dos preconceitos e certezas
De quem corre com os cotovelos nus.
Corro disperso,
Cortês para com a mente que trabalha,
Sozinha à luz da vela e ao som da navalha.
Não há voz nem melodia, apenas...
Um vociferar confortável que me chega da esquerda,
Junto à janela.
Cerveja e mortalhas...
E o fumo diletante que foge para aquela esquerda.
Enquanto Waits berra baixinho,
O piano sossegado pela cortesia
E o branco desmaiado do cubículo
Sussurram... para não afectarem a cegueira
E o sorriso mudo de quem bate no teclado.
A cabeça tomba para trás
E para a frente
Ao ritmo infernal, quase abdominal,
Rasgando as entranhas do homem
Oferecendo o poeta que, agora,
Nada mais exige.
O formigueiro das aventuras de papel
Espreita, curioso, as escalas intermináveis
Dos dedos que não se cansam,
Das ideias que não amansam.. e fogem,
Debaixo dos olhares turvos,
Pelo buraco da fechadura da porta da rua.
Corro imerso, disperso, perplexo,
Afogado no caudal da minha droga perfeita:
O bater de mim próprio
Que enche e quase rebenta..
Força Tom, dá-me lume!!
O dia seguinte
Suprimo as vontades e o egoísmo
por uma internacionalização de mim mesmo,
obrigo-me à emigração ilegal
e à navegação para lá da intersecção dos mundos
onde o mar se eleva, desconfiado,
assustado,
talvez pela ousadia da intrusão,
talvez por outra razão,
não estivesse eu a rasgar as correntes cartografadas
e a segurar, sem torcer, a porrada oferecida pelas ondas.
O Novo Mundo tinha praias quentes
e realidades diferentes
quando o pisei pela primeira vez.
As palmeiras ainda pequeninas
e os rochedos em bruto,
os botões de rosas vivas fechados,
a floresta virgem e as enseadas inexploradas
Prometiam e assustavam simultaneamente...
por uma internacionalização de mim mesmo,
obrigo-me à emigração ilegal
e à navegação para lá da intersecção dos mundos
onde o mar se eleva, desconfiado,
assustado,
talvez pela ousadia da intrusão,
talvez por outra razão,
não estivesse eu a rasgar as correntes cartografadas
e a segurar, sem torcer, a porrada oferecida pelas ondas.
O Novo Mundo tinha praias quentes
e realidades diferentes
quando o pisei pela primeira vez.
As palmeiras ainda pequeninas
e os rochedos em bruto,
os botões de rosas vivas fechados,
a floresta virgem e as enseadas inexploradas
Prometiam e assustavam simultaneamente...
Explosão de dentro
És uma estrela cadente e fluis através do meu sangue...
vives -te e revês-te no desenrolar do teu caminho
com a força, as lágrimas
e o grito mudo que explode, todos os dias,
apenas um bocadinho, todos os dias,
com a explosão ensurdecedora de um incêndio encurralado.
Bruto, afiado, empresta-me murros
fogo de outros mundos,
espanca-me por uma boa razão,
expulsa o outro de dentro de mim e vive-me
só a mim, pela primeira vez... outra vez...
Incendeia-me o peito
com a paz de espírito necessária
que sempre me acreditou chegar mais longe.
vives -te e revês-te no desenrolar do teu caminho
com a força, as lágrimas
e o grito mudo que explode, todos os dias,
apenas um bocadinho, todos os dias,
com a explosão ensurdecedora de um incêndio encurralado.
Bruto, afiado, empresta-me murros
fogo de outros mundos,
espanca-me por uma boa razão,
expulsa o outro de dentro de mim e vive-me
só a mim, pela primeira vez... outra vez...
Incendeia-me o peito
com a paz de espírito necessária
que sempre me acreditou chegar mais longe.
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